Visão Geral: Queda no Número de Mobilizações e Radiografia do Período
No primeiro semestre de 2026, os trabalhadores brasileiros promoveram 471 greves, acumulando um total de 17.752 horas paradas. Os dados fazem parte do Balanço das Greves elaborado pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), com base em dados extraídos do Sistema de Acompanhamento de Greves (SAG-DIEESE), banco de dados mantido pela entidade desde 1978.
Em comparação com o primeiro semestre de 2025, quando haviam sido contabilizadas 546 mobilizações, o volume de paralisações registrou um recuo de 14%. O decréscimo ocorreu em todas as esferas analisadas, com destaque para a acentuada retração de 50% observada nas empresas estatais, onde o número de movimentos caiu de 34 para 17. Nas empresas privadas, o recuo foi de 16% (de 290 para 245 greves), enquanto no funcionalismo público a redução atingiu 6% (de 221 para 208 paralisações).
Apesar do maior número absoluto de paralisações ter ocorrido na esfera privada, a distribuição do tempo de paralisação revelou uma dinâmica inversa: os servidores públicos responderam por mais da metade de todo o tempo paralisado no país durante o semestre.
A tabela a seguir detalha a distribuição do número de mobilizações e o volume de horas paradas entre as diferentes esferas:
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Esfera de Atuação
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Número de Greves
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Participação (%)
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Horas Paradas
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Participação no Tempo (%)
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Esfera Pública (Total)
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225
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47,8%
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11.223
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63,2%
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— Funcionalismo Público
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208
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44,2%
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9.927
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55,9%
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— Empresas Estatais
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17
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3,6%
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1.296
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7,3%
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Esfera Privada
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245
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52,0%
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6.521
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36,7%
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Esfera Pública e Privada (Conjunta)
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1
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0,2%
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8
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0,0%
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Total Geral
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471
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100,0%
|
17.752
|
100,0%
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Esfera Privada: Serviços Lideram e Atrasos Salariais Ditam o Tom
Com 245 paralisações (52% do total nacional) e 6.521 horas paradas, a esfera privada apresentou a maior quantidade de movimentos grevistas, com forte concentração no setor de serviços, responsável por 75,1% (184 greves) das mobilizações do setor. A indústria respondeu por 24,5% (60 greves), enquanto o comércio registrou apenas 1 paralisação (0,4%).
No detalhamento por ramo de atividade, a mobilização no setor privado esteve ancorada em dois grandes grupos:
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Serviços de Limpeza, Conservação, Refeições Coletivas, Portaria e Recepção: Responsáveis por 27% das greves no setor privado (66 mobilizações).
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Trabalhadores em Transportes: Também responsáveis por 27% das greves privadas (65 mobilizações), com destaque marcante para os trabalhadores do transporte rodoviário coletivo urbano.
-
Setor Industrial: As paralisações na construção e manutenção industrial (22 greves ou 9%) equipararam-se em volume às da indústria metalúrgica (19 greves ou 8%).
Ao contrário do setor público, as pautas no setor privado foram predominantemente defensivas (85,3%). A denúncia sobre o pagamento de salários em atraso esteve presente em quase metade das greves privadas (48,2%), evidenciando um quadro grave de descumprimento de obrigações trabalhistas básicas. Reivindicações relativas à alimentação surgiram em 40,0% das pautas, ao passo que o reajuste salarial figurou em 22,0% dos movimentos.
Funcionalismo Público: Educação Municipal Concentra Mobilizações
Os servidores públicos deflagraram 208 greves no primeiro semestre de 2026, somando 9.927 horas paradas. A grande maioria dessas ações ocorreu na esfera municipal, que concentrou 70,7% (147 greves) dos movimentos e 51,5% (5.117 horas) do tempo paralisado do funcionalismo.
Os governos estaduais contabilizaram 54 greves (26,0% dos movimentos e 34,6% das horas paradas), enquanto na esfera federal foram registradas 6 paralisações (2,9% das greves, mas 13,8% das horas paradas). Os profissionais da educação municipal e estadual foram os grandes protagonistas do setor, sendo responsáveis por 100 greves — o equivalente a 48% de todas as paralisações promovidas por servidores públicos no país.
Diferente da esfera privada, as pautas no funcionalismo destacaram-se pela heterogeneidade, combinando forte caráter propositivo (75,0%) com reivindicações defensivas (70,7%) e de protesto (40,9%):
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Reajuste Salarial: Item dominante nas pautas do funcionalismo público, presente em 62,5% das paralisações.
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Condições de Trabalho: Presente em 36,5% das pautas, refletindo denúncias de precariedade de infraestrutura nas unidades, falta de fornecimento de insumos, assédio moral e episódios de violência nas rotinas de trabalho.
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Melhoria nos Serviços Públicos: Pauta expressa em 30,8% dos movimentos.
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Descumprimento de Direitos: Registrado em 35,6% das greves do funcionalismo, com forte incidência na resistência de governos locais e estaduais em cumprir o pagamento do piso nacional do magistério.
Empresas Estatais: Retração Acentuada e Luta Contra Privatizações
As empresas estatais registraram o menor número de mobilizações do semestre, com 17 greves e 1.296 horas paradas. Esse resultado representou uma queda de 50% em comparação com as 34 greves observadas no primeiro semestre de 2025.
As paralisações no setor estatal ocorreram majoritariamente no segmento de serviços, que respondeu por 70,6% dos movimentos (12 greves) e por 92,6% do total de horas paradas (1.200 horas). A indústria representou 29,4% das greves (5 movimentos) e 7,4% das horas paradas (96 horas).
A distribuição por categoria nas estatais revelou o seguinte quadro:
-
Trabalhadores Urbanitários (Eletricitários/Saneamento): Lideraram as 5 paralisações ocorridas na indústria estatal (29,4% do total do setor).
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Limpeza e Conservação: Responsáveis por 4 greves nos serviços estatais (23,5%).
-
Trabalhadores dos Correios: Responderam por 3 greves (17,6%).
A pauta dos trabalhadores das estatais caracterizou-se pela forte defesa da manutenção das condições vigentes de trabalho (76,5%), motivada por mobilizaciones contra projetos de privatização de empresas estatais estaduais e municipais, além da rejeição ao avanço da terceirização de atividades finalísticas. Os sindicatos apontaram que os processos de desinvestimento levam à deterioração do ambiente de trabalho, flexibilização de normas de segurança e sobrecarga de jornada decorrente da falta de concursos públicos.
Comparativo das Pautas: Caráter e Principais Reivindicações
O estudo do DIEESE classifica o caráter das pautas em quatro categorias: propositivas (busca por novos direitos ou ampliação dos existentes), defensivas (defesa de condições de trabalho e cumprimento de direitos), protesto (questões que extrapolam a relação de trabalho imediata) e solidariedade (apoio a outras categorias).
No total de 471 greves analisadas no semestre, itens de caráter defensivo estiveram presentes em 78,8% (371 greves), com destaque para o descumprimento de direitos estabelecidos (52,4%) e a manutenção de condições vigentes (43,3%). As pautas de caráter propositivo figuraram em 51,4% das mobilizações (242 greves), enquanto movimentos de protesto somaram 21,9% (103 greves). Nenhuma greve exclusivamente de solidariedade foi registrada no período.
A tabela a seguir compara o percentual de ocorrência das principais reivindicações entre as três esferas analisadas:
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Reivindicação
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Geral (%)
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Funcionalismo Público (%)
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Empresas Estatais (%)
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Esfera Privada (%)
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Reajuste Salarial
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40,8%
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62,5%
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47,1%
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22,0%
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Alimentação (Vales/Cestas)
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30,1%
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18,8%
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29,4%
|
40,0%
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Pagamento de Salários em Atraso
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27,4%
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4,3%
|
11,8%
|
48,2%
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Melhoria das Condições de Trabalho
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26,8%
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36,5%
|
41,2%
|
17,6%
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Melhoria nos Serviços Públicos
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—
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30,8%
|
5,9%
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2,0%
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Táticas e Abrangência: Divergências Formais entre os Setores
As formas de organização das greves no Brasil demonstram contrastes significativos no tipo de tática empregada e no nível de abrangência das paralisações.
Tática Adotada
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Tempo Indeterminado: Foi a tática predominante no cômputo geral, adotada em 53,1% das greves (250 movimentos). Na esfera privada, essa tática alcançou 69,0% das paralisações.
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Advertência: Paralisações com duração previamente fixada somaram 42,9% do total (202 movimentos). Essa modalidade foi a escolha majoritária no funcionalismo público, representando 64,9% de suas greves.
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Sem Informação: 4,0% dos casos (19 greves).
Abrangência Geográfica e Organizacional
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Empresa / Unidade: Paralisações restritas a um local de trabalho ou empresa responderam por 56,1% do total nacional (264 greves). Na esfera privada, 88,2% dos movimentos tiveram essa abrangência limitada.
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Categoria Profissional: Greves que envolveram toda a categoria profissional representaram 43,9% (207 greves). No funcionalismo público, o padrão inverteu-se drasticamente, com 85,1% dos movimentos organizados em âmbito de categoria.
Análise DIEESE: Precariedade e Resistência no Trabalho
Nas considerações finais do balanço, o DIEESE destaca que o recuo estatístico de 14% no volume de greves não sinaliza uma mudança estrutural no padrão das relações de trabalho no Brasil. A coexistência de pautas defensivas e propositivas demonstra que os trabalhadores buscam tanto reposição de perdas salariais quanto proteção contra o retrocesso de garantias conquistadas.
O relatório ressalta que a greve permanece como o recurso limite acionado por trabalhadores expostos a contextos de acentuada vulnerabilidade laboral. Na esfera pública, o protagonismo cabe aos profissionais do cuidado, com destaque para a educação e a enfermagem; nas estatais, sobressaem-se eletricitários e carteiros; e no setor privado, a linha de frente é ocupada por trabalhadores terceirizados de limpeza pública, alimentação, vigilância e rodoviários urbanos. Em todos esses segmentos, o direito de greve se afirma como instrumento essencial contra a deterioração do valor do trabalho e em defesa da dignidade profissional.