Trabalhadores portuários de diferentes países se mobilizam nesta sexta-feira, 30 de outubro, para defender empregos, salários dignos e direitos trabalhistas diante das transformações no setor. A jornada internacional também se posiciona contra o uso dos portos para transportar armamentos destinados a zonas de conflito e reivindica condições dignas de trabalho.
A mobilização coloca em debate uma preocupação concreta para a categoria: como garantir que a modernização tecnológica não resulte em demissões, perda de direitos e precarização das relações de trabalho?
Eduardo Guterra, vice-presidente da Federação Nacional dos Portuários (FNP) e membro da Executiva Nacional da CUT, destaca a importância da participação dos trabalhadores na jornada internacional.
“As direções nacionais dos trabalhadores portuários estão recomendando um dia de protesto, com possibilidade de paralisações e atos públicos em frente aos portos. É importante que todos nos engajemos nessa luta, que tem alcance mundial e aborda questões atuais e fundamentais para o debate político”, afirmou Guterra.
Brasil articula participação nos principais portos
No Brasil, há articulações envolvendo trabalhadores e representantes sindicais de diferentes regiões. Guterra mencionou iniciativas em discussão no Espírito Santo e contatos com representantes dos portos de Santos, Rio de Janeiro, Bahia, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
A programação nacional ainda estava em construção no momento da gravação da entrevista. Por isso, a realização de atos públicos e paralisações em cada local depende da confirmação das entidades envolvidas.
A convocação internacional permite que cada sindicato escolha a forma de mobilização conforme as condições locais. O objetivo é fortalecer a unidade da categoria e ampliar a pressão por garantias trabalhistas diante das mudanças que atingem o seto
Tecnologia ameaça postos de trabalho
A incorporação de novas tecnologias está entre as principais preocupações dos sindicatos. Nos portos brasileiros, segundo Guterra, a inteligência artificial começa a ser utilizada em tarefas administrativas, como os procedimentos de chegada e liberação de cargas.
Essas ferramentas podem agilizar a entrada e a saída de mercadorias destinadas à importação e à exportação. Ao mesmo tempo, podem reduzir a necessidade de trabalhadores em determinadas funções, alterando postos de trabalho e a organização das operações.
“A chegada da inteligência artificial nos portos é uma realidade, sim, mas vem gradativamente, caminhando no sentido de interferir na parte burocrática e vai suprimir postos de trabalho”, alertou Guterra.
Para o dirigente, os trabalhadores não podem arcar sozinhos com os custos das transformações tecnológicas. A modernização precisa ser acompanhada de negociação coletiva, formação profissional e medidas que protejam o emprego e a renda.
“Agora, como a gente enfrenta isso, há de se ter uma negociação entre as nossas entidades sindicais e as entidades patronais”, afirmou.
A defesa sindical é que os trabalhadores participem das decisões sobre as mudanças que afetam suas funções e condições de trabalho. O aumento da produtividade não pode servir de justificativa para eliminar direitos ou ampliar a insegurança profissional.
OIT pode ajudar a proteger os trabalhadores
Entre os instrumentos apontados por Guterra está a Convenção 137 da Organização Internacional do Trabalho (OIT), que trata do trabalho portuário e estabelece medidas relacionadas à garantia de emprego e renda para os trabalhadores abrangidos por suas disposições.
O dirigente também destaca as negociações coletivas regionais e as tratativas nacionais entre as federações de trabalhadores e o setor patronal. Segundo ele, as discussões incluem treinamento, requalificação profissional e o futuro dos trabalhadores portuários avulsos, contratados conforme a demanda por serviços.
Guterra afirma que a organização sindical é fundamental para enfrentar as mudanças em condições mais equilibradas diante das empresas.
“Para enfrentar essas mudanças, usamos primeiro a força dos nossos sindicatos”, declarou.
A categoria também acompanha propostas de alteração da legislação portuária. Para os sindicatos, qualquer mudança no marco regulatório precisa considerar os direitos dos trabalhadores e as condições de quem mantém os portos em funcionamento.
Salários, jornada e segurança também estão na pauta
A jornada internacional defende aumentos salariais reais, empregos seguros, redução da jornada e condições justas de aposentadoria.
No Brasil, Guterra diferencia as condições dos trabalhadores avulsos das dos empregados diretamente pelos terminais. Segundo ele, os avulsos recebem conforme as contratações, enquanto os empregados contam com negociações sobre reajustes salariais, benefícios alimentares e participação nos lucros e resultados.
A segurança também é uma reivindicação central. A atividade portuária envolve cargas pesadas, máquinas e equipamentos de grande porte, que exigem prevenção de acidentes e treinamento adequado.
A Norma Regulamentadora 29 (NR 29) estabelece requisitos de saúde e segurança para o trabalho portuário. Para os sindicatos, a modernização precisa respeitar essas regras e melhorar as condições de trabalho, sem transferir os riscos e os custos das mudanças para quem trabalha nos terminais.
Portos pela paz e contra a militarização
A mobilização internacional também denuncia o uso de estruturas portuárias para transportar armas, munições e equipamentos militares destinados a zonas de conflito. As organizações signatárias da Declaração de Istambul se posicionam contra guerras, agressões militares e a militarização dos portos.
O documento defende o fim do genocídio do povo palestino, o reconhecimento de um Estado palestino independente e a destinação dos recursos públicos às necessidades sociais, em vez de financiar a economia de guerra e o rearmamento.
Guterra afirma que os trabalhadores portuários não querem ver sua atividade associada à destruição provocada pelos conflitos armados.
“Os nossos portos e o trabalho portuário não devem ajudar a fortalecer guerras que tiram vidas de inocentes, crianças, idosos, mulheres e trabalhadores”, declarou.
A convocação internacional surgiu após o terceiro encontro de sindicatos de estivadores e trabalhadores portuários do Mediterrâneo e da Europa, realizado em Istambul, na Turquia, em maio de 2026. Segundo o documento da articulação, as organizações participantes representam trabalhadores em mais de 40 portos.
A mobilização de 30 de outubro busca unir trabalhadores de diferentes países em torno de desafios comuns. A reivindicação é que o futuro dos portos seja construído com participação sindical, proteção ao emprego, valorização profissional e respeito aos direitos humanos. A modernização do setor precisa beneficiar também quem movimenta as riquezas, e não apenas ampliar os resultados das empresas.
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