Discurso pronunciado pelo presidente da CTB, Adilson Araújo, na reunião realizada em Buenos Aires, no dia 8 de outubro, sobre a Nova Divisão Internacional do Trabalho e o Papel do Movimento Sindical. Abaixo segue versão em esapanhol.
Queridas companheiras, queridos companheiros,
É com grande satisfação e com o senso da urgência histórica que saúdo este seminário aqui em Buenos Aires. Estamos reunidos na véspera de uma data emblemática para debater questões cruciais para o futuro da nossa classe. Lembremos que neste 8 de outubro completam-se 59 anos do assassinato do revolucionário argentino Che Guevara, um herói do proletariado mundial.
Não nos enganemos: vivemos um momento histórico profundamente hostil para a classe trabalhadora. Assistimos, no continente americano e de forma dramática em nossa América Latina, ao avanço agressivo da extrema-direita neofascista. Esta força política não surge do nada; ela é o instrumento de choque das forças mais obscuras e reacionárias das classes dominantes de nossos países, operando em total subordinação à estratégia imperialista de Washington. A agenda dessa extrema-direita é clara: ela é radicalmente antinacional, antidemocrática e antipopular. Estar aqui hoje, na capital argentina, nos obriga a olhar de frente para a realidade que nos cerca.
A Argentina tornou-se o laboratório mais radical e doloroso desse projeto entreguista. O governo Milei promove um verdadeiro desmonte do Estado, aplicando uma política de terra arrasada que destrói a indústria nacional, pulveriza o poder de compra dos salários, condena milhões à miséria e ataca frontalmente o movimento sindical.
Trata-se de uma tentativa brutal de quebrar a espinha dorsal da resistência operária argentina para entregar as riquezas e a soberania do país ao capital financeiro internacional e ao arbítrio das grandes corporações. Do outro lado da fronteira, o Brasil vive uma realidade que demonstra a complexidade desse combate. Após derrotar eleitoralmente o neofascismo em 2022, o povo brasileiro recuperou espaço para a democracia e para a reconstrução de políticas sociais.
No entanto, a conjuntura brasileira nos ensina que a vitória nas urnas foi apenas um passo e agora, após o pleito de 4 de outubro, nos defrontamos com uma realidade ainda mais adversa. O movimento operário e as forças progressistas no Brasil enfrentam diariamente a sabotagem de um parlamento reacionário, a pressão sufocante do Banco Central subordinado ao rentismo e o poder do agronegócio que tenta impor a marcha da desindustrialização.
O cenário brasileiro deixa claro: sem mobilização popular e sem a força do movimento sindical nas ruas, as conquistas democráticas correm perigo permanente diante da ofensiva da extrema-direita. O que vemos quando o neofascismo alcança o poder é o entreguismo mais descarado. Promove-se o afastamento e o rebaixamento deliberado das relações Sul-Sul. Abandona-se e retrocede-se no projeto histórico de integração regional da América Latina e do Caribe e nas formas de articulação alternativas e soberanas, como é o caso do BRICS.
Essa diplomacia da submissão tem um objetivo econômico preciso: consolidar a desindustrialização de nossas nações, aprofundar a reprimarização de nossas economias e garantir uma inserção subalterna e dependente na nova divisão internacional do trabalho. Querem nos condenar a ser, eternamente, meros exportadores de matéria-prima e importadores de tecnologia e valor agregado. Companheiras e companheiros, precisamos dar nome aos nossos adversários.
Essa extrema-direita conta com o patrocínio e a cumplicidade direta de magnatas e bilionários que comandam as Big Techs. Utilizando algoritmos desenhados para espalhar o ódio, o individualismo e a mentira, eles dominam as redes sociais para manipular a consciência das massas e desestruturar o tecido social. No campo sindical e dos direitos sociais, o impacto dessa aliança entre o capital financeiro, as plataformas digitais e a extrema-direita é devastador.
A agenda deles prevê a desregulamentação radical e a precarização completa das relações entre capital e trabalho. O objetivo final é o fim do Direito do Trabalho como o conhecemos e a imposição de uma uberização generalizada das relações sociais de produção. Querem transformar o trabalhador em um indivíduo isolado, sem direitos, sem previdência, desprovido de qualquer rede de proteção social, forçado a competir com seus próprios irmãos de classe pela sobrevivência diária.
Diante desse cenário de terra arrasada, qual deve ser o papel do movimento operário? A resposta histórica da nossa classe só pode ser uma: organização, unidade e luta. A defesa dos interesses imediatos e futuros da classe trabalhadora, bem como a salvaguarda da nossa democracia e da soberania nacional, passa, em primeiro lugar, pela resistência e por uma luta sem quartel para barrar e derrotar a extrema-direita e o fascismo. Não há espaço para vacilações ou conciliação com quem quer nos destruir.
No Brasil estamos empenhando em redobrar os esforços para reeleger Lula no segundo turno das eleições presidenciais, conscientes de que esta é uma questão vital para a classe trabalhadora. Devemos nos entrincheirar na defesa intransigente das conquistas e direitos históricos do nosso povo. Mas a nossa tarefa não é apenas defensiva. Precisamos retomar a ofensiva política e a mobilização permanente em torno das demandas mais urgentes e sentidas pela classe trabalhadora. Nesse sentido, assume uma centralidade estratégica a luta pela redução da jornada de trabalho sem redução de salários. Esta não é uma pauta corporativa ou secundária.
Diante do salto tecnológico, da automação e da inteligência artificial apropriada monopolisticamente pelos bilionários, a redução da jornada é a resposta operária para distribuir a riqueza produzida, combater o desemprego, frear o adoecimento físico e mental da nossa classe e devolver ao trabalhador o direito ao tempo, à vida, à cultura e ao lazer. É uma bandeira que unifica o conjunto dos trabalhadores — dos setores industriais tradicionais aos trabalhadores precarizados por aplicativos.
Companheiras e companheiros,
A história nos convoca a estar à altura dos desafios do nosso tempo. O avanço do neofascismo não é inevitável; ele é o sintoma de um sistema em crise que só tem a barbárie a oferecer. A alternativa à barbárie é a solidariedade internacionalista, a integração soberana dos nossos povos e a força organizada da classe trabalhadora. A unidade entre os trabalhadores da Argentina, do Brasil e de toda a nossa região é o pilar fundamental para virarmos esse jogo. Estou firmemente convencido de que este é o caminho que devemos trilhar. Daqui de Buenos Aires, devemos emitir um sinal claro de que o movimento operário latino-americano e caribenho está de pé, consciente do seu papel e pronto para o combate.
* Nenhum direito a menos!
* Derrotar o fascismo e o imperialismo!
* Viva a unidade internacional da classe trabalhadora!