Trabalhadores e trabalhadoras que cumprem jornadas superiores a 40 horas semanais têm 38% mais chances de sofrer acidentes ou desenvolver doenças relacionadas ao trabalho. O dado é do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) que alerta sobre os impactos das jornadas extensas na saúde física e mental da classe trabalhadora.
Pauta histórica da CUT, a redução da jornada de trabalho sem redução salarial e o fim da escala 6×1 devem voltar à pauta da Câmara dos Deputados na próxima semana. A discussão ganha força diante da retomada da tramitação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que altera o atual modelo de jornada, seis dias consecutivos de trabalho para apenas um de descanso. A leitura do parecer, que havia sido adiada após pressão de deputados da extrema direita, agora deve ocorrer na segunda-feira (25).
Segundo o Dieese, cerca de 6,1 milhões de trabalhadores no Brasil cumprem jornadas superiores a 40 horas semanais. Outros 1,4 milhão trabalham entre 37 e 40 horas por semana. O levantamento aponta que, quanto maior o tempo de trabalho, maior também é o risco de acidentes, adoecimento e afastamentos.
Especialistas em saúde do trabalhador têm afirmado que a sobrecarga compromete a atenção, a concentração e a capacidade de reação, fatores essenciais principalmente em atividades de risco ou que exigem vigilância constante.
Jornadas longas elevam risco de doenças e acidentes
Organizações internacionais também vêm alertando sobre os impactos das jornadas prolongadas. Estudos da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e da Organização Mundial da Saúde (OMS) apontam que trabalhar muitas horas por semana aumenta significativamente os riscos de doenças cardiovasculares, depressão, ansiedade, esgotamento físico e mental, além de acidentes de trabalho.
As entidades destacam ainda que a falta de tempo adequado para descanso impede a recuperação física e psicológica do trabalhador, acumulando fadiga ao longo dos dias.
Produtividade cai e acidentes aumentam
De acordo com a Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho (Fundacentro), instituição vinculada ao Ministério do Trabalho e Emprego, a partir da sexta hora contínua de trabalho ocorre queda na produtividade e aumento nos índices de acidentes.
Os dados reforçam que jornadas extensas afetam diretamente a capacidade cognitiva, diminuem a atenção e aumentam erros operacionais. O problema se agrava em setores como transporte, indústria, construção civil e saúde.
Motoristas de caminhão estão entre os mais afetados
Entre as categorias mais expostas às longas jornadas estão os motoristas de caminhão. Dados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), do MTE, mostram que havia, em 2022, quase 1,1 milhão de motoristas de carga com carteira assinada submetidos a contratos acima de 41 horas semanais. Desse total, cerca de 30 mil trabalhavam mais de 45 horas por semana.
No mesmo ano, foram registrados mais de 12 mil acidentes envolvendo esses trabalhadores. Especialistas alertam que a combinação entre longas horas ao volante, cansaço extremo e pressão por produtividade aumenta drasticamente o risco de colisões, falhas humanas e mortes nas estradas.
A jornada excessiva dos motoristas de caminhão compromete a atenção e a capacidade de reação dos trabalhadores, tornando-os mais suscetíveis a acidentes, especialmente em atividades que exigem alta concentração, segundo especialistas ouvidos pelo Repórter Brasil.
O que é jornada de trabalho
Jornada de trabalho é o período em que o trabalhador fica à disposição do empregador para exercer suas atividades. Atualmente, a Constituição Federal estabelece limite de 44 horas semanais, geralmente distribuídas na escala 6x1, seis dias de trabalho para um de descanso.
Apesar disso, a realidade da maioria da classe trabalhadora brasileira é de jornadas longas e desgastantes.
Segundo o Dieese, a maioria absoluta dos trabalhadores brasileiros atua entre 40 e 44 horas semanais. Além disso, cerca de 20 milhões de pessoas trabalham acima desse limite, chegando a jornadas entre 45 e 48 horas ou mais.