Na histórica Faculdade de Direito da USP, palco de lutas e atividades simbólicas em defesa das liberdades democráticas no país, foi realizado na quinta-feira (14), o ato “Nenhuma voz pela Palestina será silenciada”. O evento teve como foco central a defesa de Zé Maria, presidente nacional do PSTU, condenado recentemente a dois anos de prisão em razão de um discurso em defesa do povo palestino.
A decisão arbitrária, na opinião de todos os participantes, está inserida em uma forte ofensiva do sionismo em todo o mundo para tentar censurar aqueles que defendem a luta palestina e que denunciam a limpeza étnica e o genocídio cometidos por Israel em Gaza e nos territórios ocupados. O projeto de lei 1426/26, da deputada Tabata Amaral, que visa criminalizar toda e qualquer crítica ao sionismo também foi fortemente denunciado.
Com o prédio da faculdade cheio de cartazes e faixas que remetem à forte greve em curso na USP - que essa semana foi fortemente reprimida pela PM do governo de Tarcísio de Freitas - a conhecida “Sala dos Estudantes” ficou lotada com a presença de representantes dos movimentos sindical e social, de partidos políticos, centrais sindicais, estudantes e ativistas da causa palestina.
A mesa do evento foi composta pelo jornalista Breno Atman; o ex-deputado e presidente do PT José Genoíno; o ex-deputado do PCdoB Jamil Murad; a jornalista palestino-brasileira Soraya Misleh; a estudante da USP e ativista do Coletivo Rebeldia Mandi Coelho; o integrante da SEN da CSP-Conlutas Luiz Carlos Prates, o Mancha; o presidente da Intersindical Instrumento de Luta da Classe Trabalhadora Mané Melato; a vereadora do PSOL de Campinas Mariana Conti; a co-deputada da bancada feminista PSOL Sirlene Maciel; a deputada argentina Cele Fierro e Daniela Fajer ativista da organização Vozes Judaicas por Libertação.
“A questão Palestina é a régua moral do nosso tempo"
A abertura do ato foi marcada pela fala contundente de Soraya, que contextualizou a situação atual da luta palestina dentro dos 78 anos da Nakba (a catástrofe palestina) e destacou a gravidade da perseguição política em curso. "Esse precedente não pode passar, não pode passar porque isso é parte de um processo em meio a uma situação constante de impunidade [de Israel]", disse.
Ela também criticou a associação entre antissionismo e antissemitismo que Israel tenta criar, o que segundo ela é uma forma deliberada para silenciar vozes críticas ao sionismo. “Combater um projeto colonial, racista e genocida não equivale a discriminar judeus”, afirmou.
Recuperando uma frase da resistência palestina, a jornalista afirmou: “quando um de nós cai, dez outros se levantam”. “Cada voz que se levanta em defesa da Palestina faz com que o povo palestino se sinta menos sozinho”, disse também.
O jornalista Breno Altman, que também enfrenta processos movidos pela Conib (Confederação Israelita do Brasil), argumentou que a ofensiva sionista é grave, mas também é um sinal de isolamento político de Israel. "O regime sionista jamais esteve tão isolado na opinião pública mundial quanto hoje. Eles perderam a batalha comunicacional e por isso tentam contra atacar”, disse. Em outra afirmação incisiva afirmou: “A questão Palestina é a régua moral do nosso tempo".
Frente de solidariedade
O ex-presidente do PT, José Genuíno, reforçou a necessidade de uma frente de solidariedade, independente das diferentes posições políticas entre as organizações, para barrar o avanço de leis restritivas, como o projeto proposto pela deputada Tabata Amaral (o "PL da Mordaça"). Genuíno enfatizou: "A solidariedade entre nós, a solidariedade ao povo palestino, a solidariedade pelo direito de manifestação tem que alcançar Zé Maria e todos os perseguidos", disse.
Propostas de unidade de ação
Em sua intervenção, Zé Maria reafirmou suas posições políticas e criticou o fundamento da sentença que o condenou por suposto racismo. "Essa acusação de racismo é o último e desesperado recurso que os sionistas utilizam numa comparação falaciosa entre antissionismo e antissemitismo para tentar defender o indefensável que é o genocídio que cometem em Gaza”.
Também afirmou. “Não há condenação que nos impeça de falar a verdade”, disse. “O fim do estado sionista e racista de Israel é necessário para que possa florescer uma Palestina democrática, laica e não racista para todos que nela queiram viver", afirmou.
O dirigente também propôs iniciativas que unifiquem as organizações em uma campanha democrática nacional pela sua absolvição, pelo arquivamento de todos os processos movidos pela CONIB contra ativistas e dirigentes e contra o PL da Mordaça da deputada Tabata Amaral.
Iniciativas para organizar atos semelhantes em outros estados e realizar audiências públicas na Câmara dos Deputados, intensificar a pressão ao governo brasileiro para que rompa relações diplomáticas, comerciais e militares com Israel e se posicione contra os projetos de lei de criminalização; coleta de assinaturas para o abaixo-assinado nacional pela sua absolvição.
A transmissão completa do evento pode ser conferida no YouTube. ASSISTA AQUI.
Vamos à luta
O integrante da Secretaria Executiva Nacional da CSP-Conlutas Luiz Carlos Prates, o Mancha, avaliou que o ato foi bastante representativo e marcado pela unidade em defesa de Zé Maria e de todos os perseguidos políticos, além de denunciar o PL da Mordaça, de Tabata Amaral. “Uma mobilização que expressa a disposição de fortalecer a resistência contra a repressão e em defesa das liberdades democráticas”, disse.
“A CSP-Conlutas vai impulsionar essa campanha nas regiões, categorias e locais de trabalho, ampliando a solidariedade internacionalista ao povo palestino e denunciando o genocídio promovido pelo Estado de Israel, bem como todas as tentativas de silenciar quem se posiciona ao lado da Palestina livre, do rio ao mar”, concluiu.