Notícia - Recém chegado de Cuba, dirigente petroleiro relata crueldade da asfixia imposta pelos EUA

“Cuba vive um cenário de guerra, que apesar de não haver bombardeio, está destruindo as bases econômicas do país”. A afirmação é de Pedro Augusto, diretor do Sindipetro Unificado e da Federação Única dos Petroleiros (FUP), ao voltar de Cuba, onde foi em missão solidária para conhecer de perto a grave realidade da ilha sob bloqueio norte americano e levar medicamentos, ítens de higiene e alimentos. Em entrevista à FUP e ao Sindipetro Unificado, o dirigente descreve uma dura realidade de ruas vazias e apagões: “Apesar dos seus mais de 2 milhões de habitantes, Havana parece uma cidade do interior num feriado. Parece que estamos em março de 2020, na pandemia. Passa um carro ou outro, mas tem pouca gente nas ruas, sem transporte público, e os cortes de energia são cada vez constantes”.

O contexto dessa situação é o radical agravamento da crise social no país, que vive em meio a uma agressiva ofensiva do governo de Donald Trump, que não permite a chegada de petróleo desde dezembro de 2025, apertando ainda mais o cerco do bloqueio económico e político da ilha, que se perpetua há mais de seis décadas. Apagões quase permanentes, falta de alimentos, em especial nas províncias mais distantes de Havana, e colapso do transporte são alguns dos impactos da medida, que tem deixado o país numa situação gravíssima.

A crise do sistema de saúde só ainda não se transformou em colapso total devido à qualidade do modelo implantado na ilha desde a Revolução, baseado em acompanhamento de saúde das famílias e ações preventivas, mas que carece de remédios, ítens básicos para pequenas intervenções médicas, além de energia elétrica para realizar cirurgias eletivas e intervenções mais complexas.

Mesmo nesse cenário de guerra, Pedro Augusto destaca a resiliência do povo cubano: “Não consigo imaginar outro país que numa situação semelhante já não tivesse colapsado política e socialmente. Existe uma insatisfação muito grande das pessoas e um cansaço, mas há uma resiliência enorme desse povo. A revolução ainda tem um peso muito profundo nas relações sociais, você percebe os valores que foram cultivados alí, o acolhimento das pessoas, a humanização, a enorme solidariedade. Apesar desse colapso quase total da economia e da infraestrutura, não existe um colapso do tecido social”.

A crueldade do cerco é imensa, afirma o diretor: “É realmente uma muralha, o governo dos Estados Unidos está apostando que a queda do regime é uma questão de tempo, estão levando o bloqueio ao extremo para ver se eles não precisam entrar militarmente. Realmente, a sensação é de uma situação insustentável, se não houver uma suspensão do bloqueio energético no curto prazo”.

Décadas de asfixia

A recente ofensiva dos Estados Unidos contra Cuba é mais um novo capítulo da permanente agressão imperialista contra a ilha, um recrudescimento de um processo ininterrupto de asfixia. Em 1960, um ano depois que os revolucionários cubanos liderados por Fidel Castro derrubaram a ditadura de Fulgencio Batista, o governo norte americano estabeleceu de forma unilateral um cruel e imoral bloqueio econômico, comercial e financeiro, condenado trinta vezes pela Assembleia Geral da ONU por ampla maioria.

Ao mesmo tempo, financiaram e promoveram diversas ações de desestabilização política e sabotagem, que incluíram diversos ataques terroristas contra instalações turísticas na década dos anos 90, invasões do espaço aéreo, além da histórica e fracassada tentativa de invasão militar de 1961, derrotada pela heróica resistência dos combatentes revolucionários na célebre Batalha de Playa Girón.

“O bloqueio não pode ser deixado de fora de nenhuma análise séria sobre Cuba. É um bloqueio que já tem mais de seis décadas e sempre foi algo que restringiu as condições de desenvolvimento econômico e comercial da ilha, uma injustificável punição coletiva pelo fato da Revolução ter tirado o país do domínio dos Estados Unidos”, afirma Pedro Augusto, e explica: “logo seguiram diversos ciclos de crise, como o chamado Período Especial da década de 90, a pandemia, até chegar na gravíssima situação dos dias de hoje”.

Como Período Especial se conhecem os anos de penúrias sofridas pelo povo cubano após a queda da União Soviética, que garantia uma aliança estratégica que durante vários anos permitiu driblar o bloqueio e estender as conquistas sociais do processo revolucionário, como a universalização da saúde, a universalização da moradia, a universalização da educação, o desenvolvimento científico, cultural e social do país.

Após a chegada do chavismo ao poder na Venezuela, explica Pedro Augusto, Cuba viveu um novo ressurgir, “mas após a pandemia e após o agravamento também da situação econômica e política na Venezuela, muda o patamar das dificuldades que o bloqueio sempre impôs e passa a colocar realmente em risco as conquistas sociais mais importantes da Revolução”.

O dirigente destaca os impactos da pandemia: “A pandemia atingiu em cheio um setor fundamental para a economia cubana que é o turismo, que nunca se recuperou. Cuba vive uma grave crise de entrada de recursos há vários anos, que se agrava também com a chegada de Trump ao poder e a direitização de diversos governos na América Central, que iniciaram hostilidades contra a ilha, cortando relações diplomáticas e os contratos de prestação de serviços dos médicos cubanos”.

Quase a totalidade do suprimento energético de Cuba provém do petróleo e seus derivados. Até 2025, a Venezuela e o México eram os únicos países que exportavam petróleo para Cuba em grande escala, tendo o México, inclusive, ultrapassado a Venezuela como principal fornecedor. Mas a pressão do governo Trump levou o México a suspender o fornecimento de petróleo à ilha e, desde o sequestro de Maduro, também a Venezuela suspendeu o fornecimento.

O dirigente sindical questiona: “E aí, como a crise energética se constitui? Simples, não tem petróleo, os EUA não deixam importar petróleo. Ao não ter petróleo, não tem transporte nem energia elétrica. Aí não tem luz, aumenta a dificuldade de transporte de alimentos para as províncias mais distantes da capital, então você coloca o povo à beira da fome. É muito cruel”.

As placas solares são uma alternativa que está sendo colocada, inclusive com uma campanha internacional para arrecadar fundos com o objetivo de fazer chegar mais equipamentos à ilha. Um dos suprimentos que o comboio do qual Pedro Augusto participou levou eram justamente esse tipo de placas. “Em alguns momentos, segundo o governo, as placas solares conseguem suprir metade da demanda de energia elétrica do país, e essa é uma transição estratégica do ponto de vista da soberania energética do país”, afirma  o dirigente.

Cuba não está sozinha

O momento é de extrema gravidade. A impunidade norte-americana, escancarada após o genocídio promovido por Israel em Gaza, a guerra contra o Irã e a invasão na Venezuela, o isolamento de Cuba e a inação dos governos e das instâncias internacionais demandam ações de solidariedade dos povos. “Por isso. é fundamental aproveitar o impulso dado pelo Comboio Nuestra América, no qual participamos, que reuniu mais de 600 ativistas de mais de 30 países, para aumentar a visibilidade da denúncia do bloqueio a Cuba, além de transformar essa solidariedade em ítens que têm impacto imediato, como os medicamentos e as placas solares”, destaca Pedro Augusto.

“A luta contra o bloqueio tem que mudar de patamar, a gente precisa denunciar que por uma questão de humanidade esse bloqueio precisa parar urgentemente. Precisamos denunciar o governo Trump como o que é: um governo sanguinário. Precisamos pressionar os governos progressistas para que se empenhem em buscar construir redes de proteção a Cuba e de enfrentamento ao bloqueio, essa é uma questão fundamental do nosso tempo”, afirma.

O dirigente destaca a importância dos discursos e do envio de alimentos e medicamentos por parte principalmente do governo de Claudia Sheinbaum, a presidenta mexicana, e de Lula, mas cobra mais ação: “Do ponto de vista do discurso e de medidas emergenciais, é muito importante o que Lula, Sheinbaum e Petro (Colômbia) estão fazendo. A maioria dos países nem isso faz e não é pouca coisa vocalizar o apoio a Cuba e denunciar o bloqueio. Mas isso precisa ser traduzido em ações de maior impacto, como parte de um processo de pressão às potências e à ONU para enfrentar e denunciar o bloqueio energético, cuja queda teria um efeito imediato para a recuperação da condição de vida do povo cubano”.

É muito importante, afirma o sindicalista, “que o sindicato, a FUP e os movimentos sociais se somem às ações de solidariedade com Cuba, e também às ações de propaganda. É importante utilizarmos os relatos do que vimos lá como fonte de informação para a classe trabalhadora, para entender a gravidade da situação e entender a que ponto nós chegamos”.

Não há tempo a perder, diz Pedro Augusto: “Precisamos organizar em cada país ações e brigadas de solidariedade e tentar construir mobilização internacional em solidariedade a Cuba, é uma tarefa fundamental e urgente do nosso tempo, porque o contrário disso é a aniquilação, num prazo não muito longo, já que eles estão estrangulados, eles são o George Floyd embaixo do joelho do policial, um tempo você aguenta, numa hora já não tem como”.

 

 

 


Fonte:  Por Marcelo Aguilar, da comunicação do Unificado e da FUP - 31/03/2026

 

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