Na noite de ontem, 3 de março, o teatro Celso Furtado, no Anhembi, foi palco da abertura da II Conferência Nacional do Trabalho, com a presença dos trabalhadores, empresários e do governo federal.
Para chegar à etapa nacional, foram realizadas entre setembro e dezembro de 2025 conferências nos estados e no Distrito Federal, que mobilizaram mais de 2.800 delegados e resultaram na formulação de 386 propostas estaduais para orientar as discussões no âmbito nacional hoje e amanhã.
Durante a abertura, o secretário de Relações do Trabalho do Ministério do Trabalho e coordenador da II CNT, Marcos Perioto, ressaltou a importância da retomada do diálogo tripartite no país. A I Conferência Nacional de Emprego e Trabalho Decente foi realizada em 2012 e, desde então, o mundo do trabalho passou por grandes transformações, tendo como principal ativo as mudanças tecnológicas que alteraram as relações de trabalho e a dinâmica produtiva.
“O Ministério sempre encarou a II CNT como parte da necessária retomada do diálogo tripartite, democrático e participativo entre trabalhadores, empregadores e governo”, afirmou Perioto.
Ana Virgínia Moreira, diretora regional da OIT para a América Latina e Caribe, destacou a importância da participação de observadores internacionais que acompanham os debates. A conferência pode se tornar um marco na consolidação da agenda nacional de trabalho decente. “Essa harmonia entre o discurso global e a ação local reafirma o compromisso do Brasil como uma referência ética e política para o mundo do trabalho”, destacou.
Fim da escala 6x1
O grande debate no mundo do trabalho é reduzir a jornada de 44 para 40 horas e acabar com a escala 6x1.
Uma das falas durante o evento de abertura da II CNT foi da ministra do Planejamento e Orçamento, Simone Tebet, que afirmou que o país não vai quebrar com a redução da jornada de trabalho para o trabalhador.
“O Brasil é um país rico… Dizer que o país não suporta, que vai quebrar com o fim da escala 6x1, é não conhecer a realidade do Brasil. Não existe lazer só no domingo. A mulher que trabalha de segunda a sábado, não tem força, não tem energia para cuidar da sua família”, disse a ministra.
O presidente da CUT, Sérgio Nobre, representando os trabalhadores, destaca que este debate não se restringe à redução da jornada, mas ter uma vida fora do trabalho.
“É um debate muito mais profundo sobre a necessidade das pessoas terem mais tempo com a família e conciliar o trabalho e ser pai, mãe, ser filho, ser amigo, ser estudante. Ter uma vida além do trabalho. É disso que se trata”, disse Nobre.
Em seu discurso, o ministro Luiz Marinho afirmou que a economia brasileira já reúne condições para avançar na redução da jornada máxima de trabalho de 44 para 40 horas semanais, classificando a medida como um passo decisivo rumo ao fim da escala 6x1.
Ele ressaltou, contudo, que a mudança deve ser construída por meio de negociações coletivas entre trabalhadores e empregadores, para que as jornadas sejam ajustadas às especificidades e às características de cada setor e atividade econômica. "É evidente que a redução da jornada de trabalho gera impacto nos custos das empresas. Mas, seguramente, pode melhorar de forma determinante o ambiente de trabalho e as condições de vida das pessoas. E temos que apostar no ganho de produtividade que vem com investimento em tecnologia, em conhecimento e com o prazer no trabalho", afirmou o ministro.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, durante sua fala, também propôs que a proposta de lei para o fim da escala 6x1 seja construída entre trabalhadores, empregadores e o governo, o que traria mais segurança jurídica e seria vantajoso para todos.
“É melhor vocês construírem negociando do que vocês terem que engolir uma coisa aberta [vinda do Congresso], e depois ter de recorrer à Justiça do Trabalho”, disse.
“Tanto será melhor para nós se o que sair for o resultado de um acordo entre os empresários, os trabalhadores e o governo”, acrescentou.
O presidente disse ainda que o governo não irá “pender para um lado" nas discussões.
“Não iremos prejudicar os trabalhadores. E também não queremos contribuir com o prejuízo da economia brasileira. Nós queremos contribuir para, de forma bem pensada, bem harmonizada, encontrar uma solução”, disse.