Artigo - A política que passa ao lado de quem trabalha

O primeiro turno das eleições passou. As urnas falaram. Mas talvez seja preciso prestar atenção também naquilo que elas disseram sem escolher candidato. Mais de 33 milhões de brasileiros não foram votar. A abstenção chegou a 21,08%, o maior índice desde 1998. Somaram-se a isso 3,6 milhões de votos nulos e 2,2 milhões de votos brancos.

É claro: voto nulo não anula eleição. Abstenção também não escolhe candidato. Mas seria um erro olhar para esses números apenas como estatística.

Na última quinta-feira, estivemos no Largo da Concórdia, em São Paulo, fazendo panfletagem e conversando com trabalhadores sobre a eleição e sobre os candidatos que entendíamos que deveriam receber atenção.

E foi impossível não observar uma cena que talvez diga muito sobre o Brasil de hoje:

Uma multidão saindo do trabalho.

Cabeças baixas.

Passos apressados.

Gente entrando no trem depois de um dia inteiro de trabalho.

Uma multidão que parece funcionar no automático: trabalha, corre, pega o trem, chega em casa, dorme e, no dia seguinte, começa tudo novamente.

Por alguns minutos, olhando aquela cena, tive a sensação de estar diante de uma fotografia antiga do mundo do trabalho. Não porque aquele trabalhador seja escravo — não é. Mas porque ainda carregamos relações de trabalho nas quais o tempo, o cansaço e a vida do trabalhador muitas vezes parecem valer menos do que deveriam.

E aí está uma das grandes contradições desta eleição.

Milhões de trabalhadores foram às urnas. Milhões não foram. Milhões votaram em branco ou anularam.

E, ao mesmo tempo, continuamos assistindo a disputas políticas nas quais questões fundamentais para a vida dessa população aparecem como assunto secundário.

  • A redução da jornada.
  • O fim da escala 6 por 1.
  • O direito de ter tempo para a família.
  • O direito de descansar.
  • O direito de viver além do trabalho.

A discussão sobre o fim da escala 6 por 1 e a redução da jornada de 44 para 40 horas semanais, sem redução salarial, continua em debate no Congresso.

E aqui não estamos falando de uma questão abstrata. Estamos falando daquela pessoa que vimos no Largo da Concórdia. Da pessoa que acorda cedo, pega transporte lotado, trabalha o dia inteiro e volta para casa muitas vezes sem sequer ter tempo de conversar com os filhos.

Quando a política olha para essa pessoa?

Quando essa pessoa deixa de ser apenas um número na urna e passa a ser enxergada como cidadã, trabalhadora, mãe, pai, filho, filha, marido, esposa, amiga, amigo?

Talvez uma parte da resposta esteja justamente nesses números da eleição.

Não podemos afirmar que os 33 milhões de abstencionistas pensam da mesma maneira. Seria simplificar demais uma realidade complexa.

Mas podemos, sim, perguntar:

O que está fazendo tanta gente se afastar da política?

Por que tantos não se sentem representados?

Por que uma parcela significativa da sociedade parece olhar para a política e não enxergar nela os seus próprios problemas?

Talvez esteja aí uma das grandes tarefas para quem foi eleito.

Não basta ganhar a eleição.

É preciso ouvir quem trabalha.

É preciso olhar para quem está dentro do trem.

É preciso sair dos gabinetes e caminhar pelas ruas.

Porque democracia não termina quando termina a apuração.

Na verdade, é justamente ali que começa a responsabilidade de quem recebeu o voto.

E talvez aquela multidão do Largo da Concórdia tenha deixado uma mensagem que nenhum resultado eleitoral consegue esconder: o trabalhador brasileiro não quer apenas votar. Ele quer ser ouvido.

Quer respeito.

Quer tempo.

Quer salário.

Quer dignidade.

Quer participar da vida do país sem que sua existência seja reduzida à condição de força de trabalho.

A política precisa entender isso.

Porque, quando a política deixa de olhar para a sociedade, a sociedade começa, pouco a pouco, a deixar de olhar para a política.

E esse talvez seja o recado mais importante que ficou depois do primeiro turno.

A urna conta votos. Mas a vida real conta pessoas.


Paulo Viana, Paulão
Presidente da FITIASP

 

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