Artigo - O futuro das ferrovias está nas mãos dos jovens

O setor ferroviário vive um momento de transformação. Enquanto novos investimentos impulsionam a expansão da malha e a implantação de projetos em algumas regiões do país, áreas historicamente ligadas à ferrovia enfrentam redução de operações, perda de empregos e deterioração da infraestrutura. Em meio a esse cenário, uma questão se torna central: quem conduzirá o futuro das ferrovias brasileiras?

Os investimentos realizados nos últimos anos demonstram que o setor voltou a ocupar espaço relevante na agenda nacional de infraestrutura. Entre 2023 e 2025, os aportes públicos somaram R$4,7 bilhões, crescimento de 161% em relação ao triênio anterior, contribuindo para a geração de cerca de 20 mil postos de trabalho em obras e operações ligadas à expansão ferroviária. Os números mostram que o setor vive um novo ciclo de crescimento, com oportunidades concretas de desenvolvimento e geração de empregos.

Porém, enquanto o Centro-Oeste e parte do Norte do país recebem pesados investimentos, ampliam suas malhas e atraem novos empreendimentos logísticos, o Sul e o Sudeste ferroviário tradicional convivem com um cenário preocupante de abandono. Em diversas linhas históricas, a falta de investimentos, a redução da circulação de cargas e o sucateamento da infraestrutura têm provocado a perda de postos de trabalho e a desativação de trechos, enfraquecendo cidades que nasceram e se desenvolveram em torno da ferrovia.

Mesmo com essas diferenças regionais, é inegável que a ferrovia segue ampliando sua importância na logística nacional. Projetos como o trem que ligará Campinas a São Paulo, novos modais com foco no agronegócio e a expansão das linhas urbanas mostram o potencial do setor para o transporte de cargas e passageiros, além da sua relevância para o crescimento econômico sustentável do país.

Quando falamos em futuro, é preciso lembrar que as ferrovias não dependem apenas de investimentos, obras e expansões. O desenvolvimento do setor passa fundamentalmente pelas pessoas que irão operar, manter e se dedicar a toda essa infraestrutura nas próximas décadas. Num ambiente de transformações tecnológicas e desafios estruturais, a renovação da mão de obra é um fator primordial.

Para preparar uma nova geração de ferroviários, temos que garantir condições para que esses trabalhadores encontrem um setor fortalecido, com perspectivas de desenvolvimento e valorização profissional. A redução do desemprego entre jovens nos últimos anos amplia o universo de profissionais que podem enxergar na carreira ferroviária uma oportunidade de qualificação e estabilidade.

No dia a dia do Sindicato, vemos que milhares de trabalhadores ainda convivem com a insegurança provocada pela redução das operações e pela ausência de políticas que garantam a modernização e a preservação da malha existente. Assim, para garantir o futuro do setor não é preciso somente ampliar os modais, mas principalmente recuperar ferrovias já implantadas e valorizar seus trabalhadores.

As projeções do Plano Nacional de Logística indicam que o modal ferroviário poderá alcançar até 31% da matriz logística brasileira em 2050. A concretização desse potencial dependerá da capacidade do país conciliar crescimento, preservação da infraestrutura e fortalecimento dos trabalhadores. Nesse cenário em transformação, a formação de novos ferroviários é um elemento estratégico que definirá o futuro das ferrovias brasileiras.


José Claudinei Messias
Presidente interino do Sindicato dos Ferroviários da Zona Sorocabana

 

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