A brutal intervenção armada realizada pelo imperialismo ianque, que resultou no sequestro do presidente legal e legítimo da República Bolivariana da Venezuela, Nicolás Maduro, e da Primeira Combatente, Cília Flores, obviamente se constitui num crime perante as leis internacionais e ato de guerra, do qual a moderada e cautelosa resposta venezuelana se explica por si só.
Na ânsia de afirmar na prática sua versão 4.0 da Doutrina Monroe e seu big stick — intervencionista, belicista e colonialista — agora denominada Estratégia de Segurança Nacional, Trump recupera um preceito amplamente difundido pelo nazismo, o do Lebensraum, o “espaço vital”, onde territórios — e suas riquezas energéticas e minerais, biodiversidade, água, produção alimentícia — e povos — suas capacidades de trabalho, produção, consumo e pagamento de taxas e tributos variados — servem não exatamente para uma “raça superior”, mas para uma plutocracia oligopolista e oligárquica disposta a tudo para fins de dominação, exploração e opressão, costurando interesses econômicos, financeiros e comerciais com projetos de poder e governança ditatoriais e tirânicos.
Longe de desenhar um cenário de caos e desespero, quase distópico, ou analisar os fatos e procedimentos às escuras, sem recorrer à materialidade e à dialética das coisas, importa lembrar e reconhecer a incrível condição do capitalismo atual de funcionar sob guerra, como provam os saqueios de Afeganistão, Iraque e Líbia, operacionáveis mesmo sob fogo cerrado.
A gestão sob crise também se configura numa capacidade tragicamente excepcional da burguesia, garantido-lhe o fundamental: a extração de riquezas infinitamente.
A variedade de abordagens sobre o episódio e seus desdobramentos é valiosa e permite nuançar o conjunto de questões que saltam aos olhos. Gostaria de desdobrar o raciocínio na justa preocupação de como ele mira o Brasil em substância e — nesse aspecto — alimenta o golpismo interno, entusiasta das aventuras e truculências de Trump. Não bastasse o cerco geopolítico pelo flanco ocidental no subcontinente, a excitação da extrema-direita e a mais do que óbvia interferência estadunidense no processo político e nas eleições gerais do Brasil soam um alerta urgente urgentíssimo.
Há quem diga que dentro da Estratégia de Segurança Nacional, em verdade uma estratégia de insegurança latino-americana-caribenha, há o potencial de transformar toda a região numa zona de guerra e conflitos é real e parece não incomodar, tampouco ser um mau negócio para Washington.
Concomitante à necessária e indiscutível prestação de solidariedade integral e incondicional à Venezuela, seu povo e território, não se pode esquecer das implicações que o ato de guerra dos EUA traz para o Brasil, polarizado política e socialmente entre a democracia e o golpismo ditatorial e desenfreado. A expectativa criada pelo bolsonarismo quanto a uma escalada norte-americana contra o nosso país não deve ser subestimada e representa grave perigo na conjuntura.
O golpismo — alimentado por uma concepção entreguista — recrudesce, e a manutenção e ampliação da frente político-eleitoral para enfrentá-lo está na ordem do dia para aqueles setores mais conscientes e consequentes que atuam no cenário real e concreto da luta de classes e anti-imperialista. Não pode haver dúvidas, muito menos titubeio na militância. A Frente Ampla, com todos os seus problemas e limites, é a única solução verdadeira para barrar a extrema-direita de corte fascista.
Atentemos para os fatos e processos conforme a correlação de forças, não permitamos que voluntarismos, aventureiros e isolacionistas turvem a visão tática do constructo político engendrado com muito sacrifício e perdas. O que se anuncia é um novo colonialismo retrógrado e selvagem, disposto a impor severa repressão aos que ousam uma Nação minimamente autônoma, soberana, democrática e desenvolvida. Que a agressão belicista à Venezuela não só unifique los pueblos americanos, como também oriente e organize a luta de resistência entre os brasileiros.