Notícia - Inclusão digital para qualificar os jovens para novas profissões

A Covid-19 mostrou de vez que tecnologia e inovação, já consideradas fundamentais em todos os setores, devem ser prioridade para os governos em todos os níveis e abraçadas como política pública. A transformação digital evitou que nada parasse por completo nos serviços públicos, nas empresas, na educação e no mercado de trabalho. Mas a pandemia também escancarou as desigualdades no mundo digital. Milhões de brasileiros ainda não têm acesso à internet. Por falta de equipamentos adequados, milhares de jovens ficaram sem assistir às aulas online e trabalhadores tiveram dificuldades de se adequar ao home office. Em entrevista exclusiva à Mundo Sindical, o vereador Daniel Annenberg, candidato à reeleição, afirma que a inclusão digital virou item de necessidade básica. Um dos idealizadores do Poupatempo e responsável pela modernização do Detran-SP, além de criador de outros projetos transformadores para o governo paulista, Annenberg diz que é preciso investir na qualificação da população jovem, educá-la para as novas profissões. (O desemprego entre os jovens na faixa de 18 a 24 anos chegou a 29,7% no segundo trimestre.) Para ele, o poder público deve olhar para as necessidades dos jovens menos assistidos, aprendizes e pessoas em busca de trabalho, sobretudo das regiões de periferia. Questionado sobre o papel dos sindicatos diante dessa triste realidade, Annenberg deixa um conselho: fiquem atentos aos canais de comunicação com a população jovem. Eles mudam a todo momento. Também alerta para a falta de profissionais de TI, um mercado ainda branco e masculino. E pede aos jovens que abracem as oportunidades nessa área, que tenham a capacidade de se reciclar e aprender o tempo todo, que tenham persistência na busca do 1º emprego, que não desistam da política. Confira.

 

Tecnologia permitiu que nada parasse por completo

Mundo Sindical - A transformação digital já em curso ganhou impressionante velocidade com o isolamento imposto pela Covid-19. É uma tendência irreversível. Como vê seu impacto nas empresas, no mercado de trabalho e na educação?

Daniel Annenberg - Antes mesmo da pandemia da Covid-19, a tecnologia e a inovação já eram fundamentais para o Estado, setores da economia, empresas de pequeno, médio e grande porte, mercado de trabalho, educação etc.. São incontáveis os métodos, processos, medidas e ferramentas já consolidados por meios digitais. Com a pandemia, eles se tornaram prioritários para a famigerada reinvenção que todos nós fomos forçados a adotar.

Seja para governos, iniciativa privada, entidades da sociedade civil, seja para cidadãs e cidadãos, trabalhadores e trabalhadoras, a tecnologia foi o que permitiu que nada parasse por completo. Graças às novas tecnologias, por exemplo, a Prefeitura de São Paulo não parou durante a pandemia. E isso só foi possível porque quando fui secretário Municipal de Inovação e Tecnologia (SMIT), acelerei a implementação do Sistema Eletrônico de Informação – SEI, que digitalizou 99% dos novos processos da Prefeitura.

Outra coisa que ajudou sobremaneira a vida das pessoas prejudicadas com a crise foi o esquema implantado nas unidades do Descomplica SP para simplificar o acesso ao auxílio emergencial e ao seguro-desemprego, já que o aplicativo do governo federal não funcionava direito. Aliás, esses postos inovadores, criados para o atendimento público eficaz e de forma esclarecida, também foram criados quando fui da SMIT.

 

É urgente que se pense inovação como política pública

MS – É um caminho sem volta e que deve ser ampliado?

Annenberg - Então, a transformação digital deve ser uma constante, pois a tecnologia é capaz de otimizar recursos públicos e privados, simplificar a vida das pessoas, oferecer acesso à informação de qualidade, permitir a inclusão social e a justiça para todos. É urgente que se pense em tecnologia e inovação como política pública, que possa colocar em sinergia e constante comunicação os poderes público e privado, empresas, trabalhadores e trabalhadoras, entidades e institutos de educação, e demais entidades da sociedade civil.

 

Covid-19 escancara desigualdades no mundo digital

MS - No meio do caminho existem milhões de jovens à margem das exigências do mundo digital, seja na indústria, no e-commerce, no sistema financeiro etc. É um desafio que se arrasta desde a crise de 2016 e se agrava agora…

Annenberg - É obrigação do Estado buscar métodos e soluções inteligentes para garantir acesso à informação, formação, qualificação profissional, prestação de serviços de qualidade, implementação de projetos, com investimento e fomento, fortalecimento de diversos meios de produção, reconhecimento à produção e incentivo à criação; e isso só pode ser viabilizado à medida que se investe em novas tecnologias, soluções integradas, medidas simplificadas e desburocratizadas e em inclusão digital. Com a pandemia, ficou evidente a desigualdade nesse sentido: muita gente sem conseguir acessar a internet, alunos sem conseguir assistir às aulas online, trabalhadores com dificuldades de se adequar ao home office.

 

Inclusão digital virou um item de necessidade básica

MS – O que o Sr. sugere para facilitar a inclusão digital?

Annenberg - É necessário pensar em um programa nacional, estadual e municipal de inclusão digital. Enquanto estive à frente da Secretaria de Inovação e Tecnologia, ampliei os pontos de WI-FI Livre SP, por exemplo. Mas isso não é suficiente: além de mais pontos de acesso, precisamos também de programas de educação para que as pessoas desenvolvam as habilidades necessárias para extrair todo o potencial da internet e de equipamentos como computadores e celulares. Inclusão digital virou item de necessidade básica. Eu acredito que inclusão digital é inclusão social. E há muito a ser feito ainda no que diz respeito à educação digital.

 

É preciso qualificar os jovens para novas profissões

MS - Enquanto o desemprego geral ultrapassa 14%, entre os jovens de 18 a 29 anos chega a quase 30% - e atinge 34,5% no Nordeste e mais de 41% nas classes D e E. É uma geração sem qualificação, com renda em queda. O que se pode fazer?

Annenberg - Não tem solução fácil, trata-se de um problema complexo. É preciso investir na qualificação da população jovem, educá-la para as novas profissões. Isso significa admitir que algumas profissões deixarão de existir e outras que ainda nem conseguimos imaginar surgirão. Daí a importância de uma formação multidisciplinar e que, mais do que transmitir conteúdos, ensine as pessoas a aprenderem constantemente. Além disso, vislumbro dois grandes desafios aí: o primeiro é o crescimento econômico do nosso país. E isso depende, sobretudo, do governo federal. Sem que a nossa economia volte a crescer e sem investimento público de qualidade, não há como pensarmos em inserir todos esses jovens no mercado de trabalho. O segundo desafio é atrelado à instituição da renda básica universal: com a digitalização crescente das atividades, não vai haver emprego para todos, mesmo. Daí a importância de uma renda básica.

 

Inclusão deve atingir periferias e os menos assistidos

MS - Como treinar os jovens de nossas periferias e de regiões mais carentes, às vezes sem condições de ter um computador e ainda sem internet?  A falta de oportunidades pode criar nesses jovens “efeito cicatriz” para a vida toda.

Annenberg - Uma vez que a tecnologia vai se consolidando como um item básico da sociedade e na medida em que a inclusão digital vai se ampliando, a ideia é que a criação de políticas públicas possa ir ao encontro das necessidades de jovens, aprendizes e pessoas em busca de trabalho, sobretudo os das regiões de periferia e menos assistidos. Eu quero continuar levando para o Legislativo, entre outras, a agenda de Inclusão digital (reformulação da Política Municipal de Inclusão Digital, expansão do WI-FI Livre SP, qualificação dos Telecentros, com implementação de maior oferta de cursos de educação digital, segurança na internet etc. - inclusão digital na educação municipal e no atendimento ao cidadão); a agenda de Inovação e Economia Criativa (apoio aos negócios de impacto, com aprovação da Política Municipal de Fomento a Investimentos e Negócios de Impacto; mercado de games e jogos eletrônicos, com o fortalecimento da Frente Parlamentar de Games - pesquisas e diagnósticos do setor para identificação de demandas legislativas, eventos com o setor -; Cultura maker, com apoio e fortalecimento dos FabLabs); e a agenda para uma Cidade inclusiva: direitos humanos e cidadania (apoio à promoção de serviços públicos inclusivos e não discriminatórios, apoio à retomada da frente parlamentar dos objetivos de desenvolvimento sustentável, apoio a políticas de ação afirmativa e de enfrentamento à violência e discriminação, apoio a iniciativas legislativas para promoção de direitos humanos no ambiente digital).

 

Capacidade de se reciclar e aprender deve ser contínua

MS - Como vê nosso sistema educacional nesse cenário, em especial em relação ao ensino médio, superior e aos cursos profissionalizantes? Falta mais conexão entre as escolas e as necessidades das empresas?

Annenberg - É evidente e sabido que temos falta de profissionais de TI. Precisamos formar mais gente nessas áreas. Mais do que isso: precisamos diversificar as pessoas formadas nessas áreas, um mercado sobretudo branco e masculino. É preciso que haja mais diversidade na TI. Não apenas porque precisamos incluir mais gente, mas porque a diversidade gera trabalho de melhor qualidade. Precisamos formar mais gente em TI para suprir as necessidades da nossa sociedade, mas, reitero, precisamos também formar mais gente que saiba aprender o tempo todo. A nossa sociedade é cada vez mais dinâmica, não basta fazer faculdade e pronto. É preciso que as pessoas tenham a capacidade de se reciclar e aprender o tempo todo, de modo a atender às demandas que decorrem da transformação digital dos setores público e privado.

 

Jovens precisam abraçar oportunidades na área de TI

MS - A serviço do governo de SP,  o Sr. modernizou o Detran e foi um dos idealizadores do Poupatempo. Como vereador, é possível defender um “poupatempo” para jovens, ou seja, programas de incentivos para oferta de mais cursos técnicos e profissionalizantes?

Annenberg - Eu sou um grande defensor da educação, logo, não poderia ser contra cursos técnicos para jovens. Acho importante a formação em todas as áreas, mas é importante ressaltar que há oportunidades na área de TI - na qual milito há anos - e que muitas vezes as vagas não são preenchidas em razão da falta de profissionais qualificados. É uma boa área para os jovens ficarem de olho. A transformação digital - acelerada pela pandemia - veio para ficar. É fundamental que os jovens estejam preparados para atuar profissionalmente nesta área.

 

Sindicatos, atenção à comunicação com a juventude

MS - Sabemos que não é sua praia, mas que conselho daria aos sindicatos e centrais sindicais nesse desafio de abrir novas portas aos jovens desempregados?

Annenberg - Fiquem sempre atentos às oportunidades na área de TI. Em um mundo em que a digitalização e a automação só vão aumentar, é fundamental ficar atento às oportunidades nessas áreas. Também é importante que os sindicatos e centrais sindicais fiquem atentos aos canais de comunicação com a população jovem. Eles mudam a todo momento - atualmente, por exemplo, o Tiktok é um ótimo canal - e não adianta tentar estabelecer comunicação usando um meio que não seja utilizado pelos jovens.

 

Primeiro emprego exige persistência e capacitação MS - E o que diria aos jovens que estão concluindo o ensino médio e estão buscando seu primeiro emprego, muitos sem sucesso?

Annenberg - Persistam, estejam sempre em busca de capacitação, não deixem de se informar sobre as tendências em TI. Coisas que eram um diferencial na minha época - como saber programação - agora são pré-requisitos elementares. E não desistam da política. Estabeleçam comunicação com os políticos com os quais vocês se identificam e deixem claro para eles quais são as suas demandas e necessidades.


Fonte:  Redação Mundo Sindical - 05/11/2020


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