Notícia - Mulheres educadoras na resistência democrática. Ninguém solta a mão de ninguém!

Buscar entender a realidade em que nos inserimos a partir de diferentes visões da conjuntura, para atuar sobre ela foi o objetivo da reunião do Coletivo de Mulheres da CNTE que contou com a presença de 37 mulheres educadoras de entidades representantes de trabalhadoras e trabalhadores em educação de todas as regiões do país Fátima Silva, Secretária Geral da CNTE e Vice-presidenta da Internacional da Educação para América Latina/IEAL. Vivenciamos também, a luta por democracia e justiça para o presidente Lula, na Vigília Lula Livre com companheiros de outros sindicatos, movimentos e do MST, o que fez destas atividades do Coletivo, algo muito emblemático para a luta dos trabalhadores e das trabalhadoras em educação.

Foram convidadas para os debates, educadoras eleitas para as assembleias estaduais e câmara federal nas últimas eleições, Rosa Neide Sandes/MT e Beatriz Cerqueira/MG ambas professoras e eleitas pelo Partido dos Trabalhadores; Belén Sotelo, do Sindicato de Trabajadores Docentesde la Universidad de Buenos Aires/FEDUBA e Federación Nacional de Docentes Universitarios/CONADU da Argentina e Gabriela Sancho da Costa Rica e do Escritório Regional da IEAL.

Belén Sotelo fez uma exposição sobre do movimento de mulheres argentinas e o feminismo que surge com o movimento “Ni uma menos” e a necessidade da articulação das nossas lutas na América latina e de nos reconhecermos enquanto classe trabalhadora contra a opressão pois a nossa luta é contra o avanço do neoliberalismo que propicia a permanência e avanço das desigualdades. Gabriela Sancho falou sobre as diretrizes da IE para que mais jovens e mulheres possam ser estimuladas a participar de forma efetiva nos sindicatos e das estratégias diferenciadas de cada entidade segundo suas especificidades. Fátima Silva reafirma a importância da presença das educadoras da América Latina para os avanços nas deliberações dos fóruns da
Internacional da Educação acerca da luta pela conquista de mais espaços de poder e da necessidade de que os homens também se responsabilizem com as pautas das mulheres educadoras a partir das deliberações de seus fóruns.

Representei a CTB no debate de conjuntura e os desafios para as mulheres educadoras com Rosa Neide Sandes e Beatriz Cerqueira. As análises com muitos pontos convergentes, resgataram os movimentos dos últimos 16 anos na cena política do nosso país, o crescimento das redes sociais como importante mecanismo de comunicação e de manipulação na formação de opinião e suas consequências que definiram as eleições presidenciais, a nova configuração do Congresso Nacional e ministerial, com a eleição de Jair Bolsonaro, mas que teve sua gênese nas chamadas jornadas de junho em 2013.

A presença das mulheres no Congresso Nacional e nas Assembleias Legislativas ainda não reflete nossa presença na sociedade. E o perfil da bancada na Câmara e Senado Federal como um todo, revela a diminuição de representantes de trabalhadores/as oriundos do movimento sindical, além de uma tendência à formação de bancadas temáticas e não bancadas de partidos. Isso é preocupante, uma vez que a renovação das cadeiras parlamentares é na sua maioria, identificada com movimentos religiosos, ruralistas ou de armamentos.

Em meio a esse quadro, nosso país aprofunda a concentração de renda numa parte muito pequena da população que ganha até 1,6 vezes mais que as camadas populares do país. Pesquisas em nível mundial comprovam que isso tem consequências diretas na vida dos brasileiros e brasileiras como um todo. Aprofunda as desigualdades regionais, gera insegurança e medo na população quanto à sua sobrevivência tanto do ponto de vista econômico quanto da sua própria existência frente a potencialização da violência, uma vez que a proteção aos/às trabalhadores/as garantidos na CLT e até na Constituição Federal, foi subtraída com a reforma trabalhista e os investimentos em políticas públicas, foram congelados por 20 anos.

Portanto, o quadro conjuntural do país reafirma que o inimigo número um do povo trabalhador continua sendo o capitalismo que assume o novo personagem que lhe permite ser muito mais cruel e tirar muito mais proveito dos problemas que ele próprio gerou ao longo da nossa história pela desigualdade de classe: problemas que ainda hoje aprofundam a segregação de negros/as, mulheres, indígenas, em especial das regiões norte e nordeste, no mercado de trabalho, aumentando o trabalho informal e sem proteção social.

A política vencedora nas eleições é a que defende: o crescente lucro do rentismo e contará com um superministério dirigido por Paulo Guedes, composto de banqueiros e economistas orientados pela escola de Chicago; o autoritarismo e moralismo militar, representado na vice presidência, secretaria de governo, segurança institucional e ciência e tecnologia disputa a condução política do governo expondo suas contradições; ataque aos movimentos sociais e partidos de esquerda, com Moro assumindo o núcleo jurídico policial no ministério da justiça, responsável pela parte do Ministério do Trabalho extinto, que dentre outras coisas, cuidará do registro e funcionamento de sindicatos.

Mas engana-se quem pensa que isso é bastante.

A apropriação das pautas identitárias também é algo que o novo governo investe através do aparelhamento ideológico de setores importantes do governo como educação, direitos humanos, igualdade racial, mulheres, meio ambiente, agricultura. Resignificando as pautas históricas do movimento negro, de mulheres, trabalhadores sem-terra, agricultura familiar e ambientalistas, o novo governo traz de volta a velha política que se fundamenta em valores rígidos e religiosos como pano de fundo para implementar a maximização dos lucros da elite do atraso, e demonizando os movimentos sociais e suas lideranças.

Portanto. ajuste fiscal, privatizações irrestritas, ataque e fim de finaciamento a programas sociais existentes e patrulhamento ideológico, com a desculpa de combate à corrupção é o que se espera, além dos grandes constrangimentos internacionais pela mediocridade de uma grande parte dos representantes desse governo eleito.

E o que fazer?

Resistir e lutar não só pela democracia. Mas disputar o conceito de democracia que contemple e valorize os trabalhadores e trabalhadoras.

Entender a realidade no método, no discurso, na forma como nos expressamos e apresentamos nossas ideias e como damos efetividade a elas é fundamental para a resistência democrática e social.

Envidar esforços para nos juntarmos, o conjunto de forças progressistas, de forma mais ampla.

Que possamos como disse Michelle Bachelet, mudar a política entendendo o significado de frente ampla. Que parta de nós mulheres, assumir o conceito de democracia que não invisibiliza os/as diferentes - que nem por isso são antagônicos/as - não reproduzindo as práticas da velha política hegemonista, que só nos fragmenta e enfraquece.

Nossa luta, enquanto classe trabalhadora requer que ninguém solte a mão de ninguém. Que ninguém cale ninguém. Que ninguém invisibilize ninguém.

Temos agendas prioritárias como a Reforma da Previdência; a luta contra a disseminação de ideias de uma só religião, de um só campo político e com isso a doutrinação e robotização de crianças e jovens que é o PL 718/14 paradoxalmente denominado “Escola sem Partido”; as privatizações irrestritas; desmonte e mercantilização da educação pública, e o favorecimento das empresas de Educação à Distância, com a aprovação de 20%, 30% e 80% desta modalidade no ensino fundamental, médio e Educação de Jovens e Adultos pelo Conselho Nacional de Educação, respectivamente; a luta pelo SUS de qualidade social; pelo fim de toda forma de violência e preconceito de gênero, raça, etnia, orientação sexual, de crença, de filiação partidária; por mais mulheres nos espaços de poder e decisão.

O que nos une, não anula nossas diferenças. Nos fortalece contra o inimigo comum que é antagônico ao projeto de nação que queremos construir.

As palavras de Cora Coralina acima, definem bem as 37 mulheres trabalhadoras em educação de entidades de todas as regiões do país afiliadas à CNTE, que participaram do Coletivo de Mulheres nos últimos dias 6 e 7 de novembro em Curitiba, Paraná.

Definem bem as mulheres que não puderam participar do Coletivo: as trabalhadoras em educação, professoras, pedagogas, funcionárias, que carregam consigo a história da educação que não aparece na história oficial: de vencer os códigos de conduta para mulheres para serem admitidas nas escolas, de se doar de corpo e alma ao trabalho, mas terem que encarar o mesmo como uma extensão de suas casas.

Mulheres que estão nestes espaços de debate e construção do movimento sindical, representando outras mulheres e homens que dão vida política e administrativa para seus sindicatos.

Mulheres que escolheram a luta organizada por valorização profissional e educação de qualidade, enfrentando todos os obstáculos que uma mulher tem que enfrentar na vida privada quando se lança à esfera pública. E em meio às mais profundas adversidades, permanecem na luta.

Como mulher, trabalhadora em educação, sindicalista, diria que o que as move é a esperança. A esperança revolucionária de que um dia, sua profissão possa ser tratada como tal e valorizada como de alta relevância social. Que a radicalidade da democracia numa sociedade justa e fraterna seja determinante para que homens e mulheres tenham igualdade na vida e no trabalho.

Como Secretária de Relações de Gênero da CNTE, parabenizo e agradeço em nome da nossa direção a todas as mulheres trabalhadoras em educação, maioria absoluta da nossa categoria, pela luta e determinação que fez e faz de nossa Confederação uma referência no Brasil, na América Latina e no mundo na luta por democracia, igualdade de gênero e educação pública de qualidade.


Fonte:  cnte - 13/12/2018


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