Notícia - Trabalhadores do Brasil e Itália denunciam desmonte neoliberal na pandemia

Trabalhadores e trabalhadoras do Brasil e da Itália estão entre as classes que mais sofreram as consequências da pandemia de covid-19 em todo o mundo. Nos dois países, por conta da linha de atuação – ou falta dela – de seus governos, as taxas de desemprego subiram rapidamente, comércios e indústrias fecharam as portas e a desigualdade social aumentou. No entanto, os resultados poderiam ser piores se não houvesse pressão dos movimentos sociais e populares, como os sindicatos, que cobraram medidas de proteção social e de segurança desde o início da crise sanitária. 

Essa avaliação é compartilhada por dirigentes da CUT-SP e da central sindical italiana CGIL Lombardia, que realizaram um Seminário Internacional nesta quinta-feira (6). As duas entidades possuem acordo de cooperação, que promove a troca de experiências do movimento sindical das duas regiões. A abertura da atividade contou com a participação do presidente da CUT-SP, Douglas Izzo, do diretor de Política Internacional da CGIL, Sergio Bassoli, e do secretário de Relações Internacionais da CUT Brasil, Antonio Lisboa. O Seminário foi mediado pelo secretário-geral da CUT-SP, Daniel Calazans, e pelo responsável pelo Departamento Internacional da CGIL Lombardia, Fabio Ghelfi.

O encontro debateu os desafios da classe trabalhadora internacional no atual momento de pandemia de covid-19, a reconstrução da economia depois do fim dessa crise sanitária, formas de se organizar para frear as políticas neoliberais pelo mundo e a garantia de emprego com direitos para milhões de pessoas. Calazans lembrou que o Brasil atravessa esse momento com o governo de Jair Bolsonaro (ex-PSL) que, além de negacionista da ciência, criminaliza a atuação dos sindicatos e movimentos sociais.

Ainda na abertura do encontro, o presidente da CUT-SP, Douglas Izzo, leu uma carta enviada pelo ex-presidente Lula (clique aqui para visualizar), que agradeceu o apoio que a central italiana deu a ele durante o período de sua prisão ilegal. Izzo também reforçou que as políticas econômicas do governo Doria (PSDB) são as mesmas que a do o governo federal: “ataca os direitos dos trabalhadores e amplia a agenda de desmonte do estado”, disse.

"Temos 14 milhões de desempregados em função de uma política equivocada do governo federal que não funciona no momento de crise. Essa agenda vem desde o golpe contra a ex-presidenta Dilma, em 2016, onde foram aplicadas diversas reformas liberais, como uma emenda que congela os recursos do estado por 20 anos, e que já tirou R$ 200 bilhões do SUS. E agora vem uma reforma administrativa que quer transformar direitos como saúde, educação, assistência social e segurança pública em mercadoria", afirmou.

Já Sergio Bassoli, da CGIL, reforçou a importância da união internacional dos trabalhadores e das trabalhadoras para que seja construído um mundo mais igualitário no pós pandemia. "Temos que valorizar esse trabalho para reforçar o empenho dos sindicatos com os direitos do trabalhador, os direitos humanos e o reforço da democracia e traduzir essa solidariedade em conquistas concretas".

Fabio Ghelfi, também dirigente da CGIL, explicou que as centrais sindicais foram essenciais em 2020 para a superação da pandemia em Lombardia, região da Itália que foi a mais atingida pelo coronavírus, com a organização de uma greve geral em março de 2020, que forçou as empresas a paralisarem suas atividades, e pela pressão no governo que garantiu um auxílio aos trabalhadores e as trabalhadoras. 

Troca de experiências

Na primeira mesa do evento, o diretor técnico do DIEESE (Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos), Fausto Augusto Junior mostrou dados da realidade brasileira, com mais de 14 milhões de pessoas sem emprego, e sobre como a falta de políticas sociais deixam descobertos também os trabalhadores que atuam na informalidade. 

Em seguida, Alessandro Pagano, secretário-geral da CGIL Lombardia, complementou sobre os riscos da chamada “uberização” dos serviços e a indústria 4.0, que já começa a deixar saldos de empregos no negativo. Douglas Izzo criticou a atuação dos governos no Brasil, que não adotaram o lockdown como medida para assegurar o controle da disseminação do vírus e, assim, as atividades voltarem a funcionar sem grandes problemas. 

Já na segunda mesa, dirigentes e convidados de diferentes ramos apresentaram os impactos causados pelo vírus no mundo do trabalho em seus respectivos países. No cenário geral, em quase todas as atividades houve redução de vagas devido à falta de planejamento dos governos ao demorarem tomar medidas de contenção à pandemia. Já em setores com necessidade de novas contratações, como é o caso da saúde e demais serviços do setor público, para suprir demandas urgentes da população, ficaram evidentes a falta de investimentos ou desmontes causados nos últimos anos. 

Pelo ramo financeiro falou Luiz Claudio Marcolino, vice-presidente da CUT-SP, e Gabriele Poeta Paccati, pela CGIL. O representante brasileiro, que faz parte do Sindicato dos Bancários de São Paulo, Osasco e Região, lembrou que a luta da categoria garantiu que 50% dos funcionários conseguissem trabalhar no modelo home office e, entre os que precisaram trabalhar presencial nas agências, tiveram os Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) garantidos. 

Já Pacati explicou que o Banco Central Europeu adotou uma política ultra expansionista que garantiu o bom funcionamento do sistema financeiro na região. Ele, porém, reforçou que na pós-pandemia será necessário a adoção de uma política econômica que garanta crescimento por meio de fortes investimentos públicos. 

Pelos servidores públicos, Sergio Antiqueira, presidente do SindSep, fez uma análise dos governos nacional, estadual e municipais que atacam cada vez mais a categoria com a falsa premissa de que o país gasta muito com funcionalismo público. Ele também denunciou a falta de EPI’s para os trabalhadores da saúde no início de 2020 e que os governos estão querendo a volta às aulas presenciais no pior momento da pandemia. 

A italiana Manoela Vanoli criticou muito o governo da região da Lombardia, que demorou muito para tomar as atitudes necessárias para que o vírus parasse de circular. Denunciou também que grande parte da saúde na região está nas mãos da iniciativa privada. 

Também houve troca de experiências entre os ramos metalúrgicos, com Erick Silva, da FEM/CUT-SP, e Antonio Castagnoli, secretário de Organização da FIOM CGIL; do ramo químico, com Airton Cano, coordenador político da FETQUIM/CUT-SP, e Francesco Disalvo, secretário geral da FILCTEM CGIL Lombardia, do comércio, com Antonio Carlos Filho, vice-presidente da Contracs CUT, e Marco Beretta, secretário-geral da FILCAMS CGIL Milão, da educação, com Nilcéa Fleury, presidenta da FETE-SP, e Tobia Sertori, secretário-geral da FLC CGIL Lombardia, e da saúde, com Hélcio Marcolino, vice-presidente do Sindsaúde-SP e secretário de Política e Organização da CUT-SP. 

O seminário completo pode ser assistido aqui.


Fonte:  Bruno Pavan e Rafael Silva - CUT-SP / Foto: Alexandre Trindade - CUT-SP - 07/05/2021


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